Deitas-te a meus pés
e as páginas passam a ser almofadas
recheadas de sonhos
e frutos
e nuvens
e acreditares
e palavras como as que nunca me disseste
* escrito para o quadro do artista Alexander Demidov, da Bielorússia, e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
À distância
Ergui o rosto para ti
beijaste-me a testa
tal como vinha no livro
das promessas de amor
e de todos os sonhos
* escrito para o quadro do artista Silas Stoddard e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
beijaste-me a testa
tal como vinha no livro
das promessas de amor
e de todos os sonhos
* escrito para o quadro do artista Silas Stoddard e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Flores amarelas
O sono vem e não vem
e o sol vai nascendo na janela
Nas entrelinhas do livro que tento ler
estão as flores amarelas que me trouxeste
* escrito para o quadro do artista chinês Chen Bolan e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
e o sol vai nascendo na janela
Nas entrelinhas do livro que tento ler
estão as flores amarelas que me trouxeste
* escrito para o quadro do artista chinês Chen Bolan e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Detalhes
Às vezes não passa de um detalhe
uma vírgula no teu olhar
uma reticência na forma
como as tuas mãos alcançam a minha
Às vezes não passa de uma gralha
uma palavra que saiu trocada
da tua boca
uma conjugação do verbo amar
num presente mais que imperfeito
Às vezes não passa de um rabisco
que displicente traças
na margem do livro
que andamos a escrever
Mas tudo me diz
que eu e tu
não pertencemos
ao mesmo poema
* escrito para o quadro da alemã Annette Schmucker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
uma vírgula no teu olhar
uma reticência na forma
como as tuas mãos alcançam a minha
Às vezes não passa de uma gralha
uma palavra que saiu trocada
da tua boca
uma conjugação do verbo amar
num presente mais que imperfeito
Às vezes não passa de um rabisco
que displicente traças
na margem do livro
que andamos a escrever
Mas tudo me diz
que eu e tu
não pertencemos
ao mesmo poema
* escrito para o quadro da alemã Annette Schmucker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Contemplação
Todos os meus dias
são feitos da contemplação
teimosa
do mundo
Nuns vejo a beleza
do recorte perfeito
imperfeito
do mármore
Noutros a imperfeição
perfeita
de nós
* escrito para o quadro da australiana Catherine Abel e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
são feitos da contemplação
teimosa
do mundo
Nuns vejo a beleza
do recorte perfeito
imperfeito
do mármore
Noutros a imperfeição
perfeita
de nós
* escrito para o quadro da australiana Catherine Abel e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
No topo
Na procura de uma montanha alta
do topo da qual ver o mundo
encontrei-te.
Fechado, sem conhecer o que seja
o ar rarefeito da altitude
E, no entanto, levantando uma voz
potente
que alcança os confins da terra
* escrito para o quadro do ilustrador espanhol Jose M Capitán del Rio e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
do topo da qual ver o mundo
encontrei-te.
Fechado, sem conhecer o que seja
o ar rarefeito da altitude
E, no entanto, levantando uma voz
potente
que alcança os confins da terra
* escrito para o quadro do ilustrador espanhol Jose M Capitán del Rio e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Ao almoço
Noutro tempo
falavas de amor e bondade
e fazia sentido
Depois li a tua alma
como um livro
e encontrei gralhas
e incongruências
Arrumei-te na biblioteca
da minha memória
Talvez o pó te transforme
na essência bonita de ti
* escrito para o quadro do americano Joseph C. Leyendecker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
falavas de amor e bondade
e fazia sentido
Depois li a tua alma
como um livro
e encontrei gralhas
e incongruências
Arrumei-te na biblioteca
da minha memória
Talvez o pó te transforme
na essência bonita de ti
* escrito para o quadro do americano Joseph C. Leyendecker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Sonhando
Deito a cabeça no colo
das tuas palavras,
sonho as linhas com que coses o meu âmago
delicadas e insanas
acordarei um dia
talvez em Setembro
e saberei de cor a tua alma
* escrito para o quadro do americano John Tarahteeff e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
das tuas palavras,
sonho as linhas com que coses o meu âmago
delicadas e insanas
acordarei um dia
talvez em Setembro
e saberei de cor a tua alma
* escrito para o quadro do americano John Tarahteeff e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Na praia
Foi sempre assim
Tu virado para os pés,
eu para a cabeça.
E a-mar ali tão perto
* escrito para o quadro do argentino Alfredo Antognini e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Tu virado para os pés,
eu para a cabeça.
E a-mar ali tão perto
* escrito para o quadro do argentino Alfredo Antognini e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
À luz da vela
Lembras-te de quando éramos miúdos?
Ainda não havia electricidade lá no monte
e a avó insistia para não lermos muito tempo
que fazia mal aos olhos.
Hoje uso óculos e cada vez vejo menos
mas já ninguém me tira os milhares de livros
que me passaram pela vista
sim, mesmo sob a luz trémula da vela
estiraçados no chão de cimento fresco
da sala da salgadeira
* escrito para o quadro do ilustrador madrileno Kike de la Rubia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Ainda não havia electricidade lá no monte
e a avó insistia para não lermos muito tempo
que fazia mal aos olhos.
Hoje uso óculos e cada vez vejo menos
mas já ninguém me tira os milhares de livros
que me passaram pela vista
sim, mesmo sob a luz trémula da vela
estiraçados no chão de cimento fresco
da sala da salgadeira
* escrito para o quadro do ilustrador madrileno Kike de la Rubia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Três pisos
Faz-se silêncio na biblioteca
ecoa apenas a voz interior de quem lê
poemas recheados
de estranhas metáforas
e um ocasional coração que bate mais forte
rascunhando uma carta de amor
* escrito para o quadro da austríaca Anna-Maria Jung e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
ecoa apenas a voz interior de quem lê
poemas recheados
de estranhas metáforas
e um ocasional coração que bate mais forte
rascunhando uma carta de amor
* escrito para o quadro da austríaca Anna-Maria Jung e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Navegando
Encho o barco de livros e zarpo
que já nada me prende ao cais
nem o teu olhar
nem a voz dos pinhais
nas noites de vento
nem a lentidão das horas
à sombra da figueira velha
Esperam-me o alto mar
e aventuras de piratas e medusas
sereias mais ou menos obtusas
navegar
* escrito para o quadro do pintor alemão Quint Buchholz e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
De bicla
A rua
A cidade
O mundo
tudo faz silêncio
para ouvir melhor a voz com que escreves
a voz com que me falas do teu mundo
dos teus silêncios
da tua cidade
da tua rua
enfim, de mim
que livros são espelhos
também de quem os lê
* escrito para o quadro da artista americana Karen Cooper e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
A cidade
O mundo
tudo faz silêncio
para ouvir melhor a voz com que escreves
a voz com que me falas do teu mundo
dos teus silêncios
da tua cidade
da tua rua
enfim, de mim
que livros são espelhos
também de quem os lê
* escrito para o quadro da artista americana Karen Cooper e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Até à China
Amor, ias buscar-me à China?
Ia buscar-te ao fim do mundo.
Amor, ias buscar-me tão longe?
Tão longe quanto for preciso.
Amor, ias buscar-me dentro de um livro?
Desculpa, não sei ler.* escrito para o quadro do artista chinês Liu Ye e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Nuvens de tinta-da-china
Nas nuvens de tinta-da-china escondo as palavras
que ainda não sei como usar
retalhos do meu corpo e do meu cheiro
e do sabor das minhas entranhas
destroços dos meus amores e desamores
pequenas pérolas das ostras felizes de dias de mar
grãos de areia na engrenagem dos céus
de algodão sujo
* escrito para o quadro do pintor e cenógrafo espanhol José Luis Navarro e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
que ainda não sei como usar
retalhos do meu corpo e do meu cheiro
e do sabor das minhas entranhas
destroços dos meus amores e desamores
pequenas pérolas das ostras felizes de dias de mar
grãos de areia na engrenagem dos céus
de algodão sujo
* escrito para o quadro do pintor e cenógrafo espanhol José Luis Navarro e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Metamorfose
O estômago permanece sereno
mas as pernas desfazem-se em borboletas
quando leio as linhas que escreveste
noutro tempo
a poesia é imortal, amor
mesmo que tu não sejas
* escrito para o quadro do vietnamita Duy Huynh e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
mas as pernas desfazem-se em borboletas
quando leio as linhas que escreveste
noutro tempo
a poesia é imortal, amor
mesmo que tu não sejas
* escrito para o quadro do vietnamita Duy Huynh e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Selvagem
Somos todos animais selvagens
na leitura
que fazemos
dos outros
Devoramos
os seus corações em sangue
roemos os seus
ossos exangues da luta
cuspimos
o que resta das suas
carcaças
E nada trava o apetite
* escrito para o quadro da ilustradora italiana Roberta Angaramo e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
na leitura
que fazemos
dos outros
Devoramos
os seus corações em sangue
roemos os seus
ossos exangues da luta
cuspimos
o que resta das suas
carcaças
E nada trava o apetite
* escrito para o quadro da ilustradora italiana Roberta Angaramo e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Memórias
Mergulho em ti
como mergulhas na minha memória
sem pedir licença
faço-me extensão
do que somos juntos
serena sereia amando pirata
enredo de livro de cordel
final obviamente feliz
bendita a literatura
que nos mantém juntos
quando a morte ceifou
a verdade
* escrito para o quadro da pintora francesa Francine Van Hove e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
como mergulhas na minha memória
sem pedir licença
faço-me extensão
do que somos juntos
serena sereia amando pirata
enredo de livro de cordel
final obviamente feliz
bendita a literatura
que nos mantém juntos
quando a morte ceifou
a verdade
* escrito para o quadro da pintora francesa Francine Van Hove e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
sábado, 29 de setembro de 2012
No olhar
Em algum dia fomos assim
criança de livro na mão
sonhos por sonhar
quanto mais viver
e todos os pássaros no olhar
* escrito para o quadro do pintor espanhol Jose Enrique Pinaglia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
criança de livro na mão
sonhos por sonhar
quanto mais viver
e todos os pássaros no olhar
* escrito para o quadro do pintor espanhol Jose Enrique Pinaglia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
Na relva
Deixa-me morrer assim, estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens.
Deixa-me morrer assim, um livro aberto numa página bonita
- espero que não se levante o vento e a mude,
baralhando a minha última vontade
e testamento final.
Deixa-me morrer assim, a achar que vão recordar-me
e testamento final.
Deixa-me morrer assim, a achar que vão recordar-me
e sentir vagamente a minha falta quando,
em dias assim quentes e húmidos,
avistarem alguém estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens
e um livro aberto.
Quem sabe numa página bonita
Quem sabe numa página bonita
* escrito para o quadro do pintor sérvio Vladimir Dunjic e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
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