segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ao almoço

Noutro tempo
falavas de amor e bondade
e fazia sentido

Depois li a tua alma
como um livro
e encontrei gralhas
e incongruências

Arrumei-te na biblioteca
da minha memória


Talvez o pó te transforme 
na essência bonita de ti


* escrito para o quadro do americano Joseph C. Leyendecker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Sonhando

Deito a cabeça no colo 
das tuas palavras,
sonho as linhas com que coses o meu âmago 
delicadas e insanas

acordarei um dia
talvez em Setembro 
e saberei de cor a tua alma


 * escrito para o quadro do americano John Tarahteeff e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Na praia

Foi sempre assim

Tu virado para os pés,
eu para a cabeça.

E a-mar ali tão perto


* escrito para o quadro do argentino Alfredo Antognini e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

À luz da vela

Lembras-te de quando éramos miúdos?
Ainda não havia electricidade lá no monte 
e a avó insistia para não lermos muito tempo
que fazia mal aos olhos.

Hoje uso óculos e cada vez vejo menos
mas já ninguém me tira os milhares de livros
que me passaram pela vista
sim, mesmo sob a luz trémula da vela
estiraçados no chão de cimento fresco 
da sala da salgadeira


 * escrito para o quadro do ilustrador madrileno Kike de la Rubia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Três pisos

Faz-se silêncio na biblioteca

ecoa apenas a voz interior de quem lê
poemas recheados
de estranhas metáforas

e um ocasional coração que bate mais forte
rascunhando uma carta de amor

 * escrito para o quadro da austríaca Anna-Maria Jung e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Navegando

Encho o barco de livros e zarpo
que já nada me prende ao cais

nem o teu olhar
nem a voz dos pinhais
nas noites de vento

nem a lentidão das horas 
à sombra da figueira velha

Esperam-me o alto mar
e aventuras de piratas e medusas
sereias mais ou menos obtusas

navegar 

 * escrito para o quadro do pintor alemão Quint Buchholz e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

De bicla

A rua
A cidade
O mundo
tudo faz silêncio
para ouvir melhor a voz com que escreves

a voz com que me falas do teu mundo
dos teus silêncios
da tua cidade
da tua rua

enfim, de mim
que livros são espelhos
também de quem os lê 


* escrito para o quadro da artista americana Karen Cooper e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Até à China

Amor, ias buscar-me à China? 
Ia buscar-te ao fim do mundo. 
Amor, ias buscar-me tão longe?
Tão longe quanto for preciso.
Amor, ias buscar-me dentro de um livro?
 
Desculpa, não sei ler.

 * escrito para o quadro do artista chinês Liu Ye e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Nuvens de tinta-da-china

Nas nuvens de tinta-da-china escondo as palavras
que ainda não sei como usar
retalhos do meu corpo e do meu cheiro
e do sabor das minhas entranhas
destroços dos meus amores e desamores
pequenas pérolas das ostras felizes de dias de mar
grãos de areia na engrenagem dos céus
de algodão sujo


 * escrito para o quadro do pintor e cenógrafo espanhol José Luis Navarro e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Metamorfose

O estômago permanece sereno
mas as pernas desfazem-se em borboletas
quando leio as linhas que escreveste
noutro tempo

a poesia é imortal, amor
mesmo que tu não sejas

 * escrito para o quadro do vietnamita Duy Huynh e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Selvagem

Somos todos animais selvagens
na leitura 
que fazemos 
dos outros

Devoramos 
os seus corações em sangue 
roemos os seus 
ossos exangues da luta
cuspimos
o que resta das suas 
carcaças

E nada trava o apetite 

 * escrito para o quadro da ilustradora  italiana Roberta Angaramo e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Memórias

Mergulho em ti
como mergulhas na minha memória
sem pedir licença

faço-me extensão
do que somos juntos
serena sereia amando pirata
enredo de livro de cordel
final obviamente feliz

bendita a literatura
que nos mantém juntos
quando a morte ceifou
a verdade

 * escrito para o quadro da pintora francesa Francine Van Hove e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
 

sábado, 29 de setembro de 2012

No olhar

Em algum dia fomos assim
criança de livro na mão
sonhos por sonhar
quanto mais viver

e todos os pássaros no olhar


 * escrito para o quadro do pintor espanhol Jose Enrique Pinaglia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
 

Na relva

Deixa-me morrer assim, estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens. 
Deixa-me morrer assim, um livro aberto numa página bonita
- espero que não se levante o vento e a mude,
baralhando a minha última vontade
e testamento final.

Deixa-me morrer assim, a achar que vão recordar-me
e sentir vagamente a minha falta quando,
em dias assim quentes e húmidos,
avistarem alguém estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens
e um livro aberto. 

Quem sabe numa página bonita

 * escrito para o quadro do pintor sérvio Vladimir Dunjic e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um abraço

Importa o que se lê?
Importa se as letras que se juntam 
falam de algo que morreu
de passados que passaram
de futuros que não se sabe se teremos?

Importa se a sequência em que se completam 
ilustram estados de alma 
paixões rasgadas
ou meros reflexos de luz numa gota de água 
que se equilibra perclitantemente
numa pétala?

Importa se as palavras se aninham
umas nas outras
para simular o teu abraço? 

* escrito para o quadro da irlandesa Daire Lynch e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Detalhes

Às vezes não passa de um detalhe
uma vírgula no teu olhar
uma reticência na forma
como as tuas mãos alcançam a minha

Às vezes não passa de uma gralha

uma palavra que saiu trocada
da tua boca
uma conjugação do verbo amar 
num presente mais que imperfeito

Às vezes não passa de um rabisco 
que displicente traças 
na margem do livro
que andamos a escrever

Mas tudo me diz
que eu e tu 
não pertencemos 
ao mesmo poema


 * escrito para o quadro da alemã Annette Schmucker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Peço escusa

 
Peço escusa, sr. dr. juiz,
Peço escusa à dor
que a conheço de outros carnavais 
Peço escusa ao abismo negro
das lágrimas
Ao portão imenso
que delimita a minha loucura
 
Peço escusa
encarecidamente
sr dr juiz 
à negritude de alma
que sei como tolda a vida
 
Peço escusa ao sofrimento
auto infligido
Prefiro a infinita ingenuidade
de achar que todos os dias
são recomeços
e todos os dias posso fingir que sou feliz 
E todos os dias posso dar
chapadas de luva branca aos que choram
e se lamentam
e se arrastam
Como me arrasto por dentro
quando me permito
ser apenas eu
 
Peço escusa sr. dr. juiz
às chaves da minha angústia
Prefiro os muros altos que criei
e a solidão que significam
à compaixão que abomino
 

sábado, 25 de agosto de 2012

Chão da manhã



Escorregam-me os olhos pelo chão da manhã
em busca do momento da partilha que há-de vir.
Pertenço ao povo que vive na dura argamassa das juntas.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Às escondidas


Poucos sabem que me escondo
na tua imagem

Faço dela o transporte
para as palavras
que não consigo segurar
e que temo não valerem
a tinta que nelas gastos
o papel que risco
a eito
sem conseguir suster
a ânsia
de dizer algo que sei
sem saber como sei

algo que fique

algo por que me recordem
um dia
quando já não for mais
do que cinza e espírito

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estalo


Tira-me as palavras da alma, o poeta
atira-as de volta
como um estalo

um bofetão de realidade
envolta em poesia
duas linhas aqui
ali um pé quebrado
além a redondilha
medida velha de quem sou
e não sei dizer