segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Até à China

Amor, ias buscar-me à China? 
Ia buscar-te ao fim do mundo. 
Amor, ias buscar-me tão longe?
Tão longe quanto for preciso.
Amor, ias buscar-me dentro de um livro?
 
Desculpa, não sei ler.

 * escrito para o quadro do artista chinês Liu Ye e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Nuvens de tinta-da-china

Nas nuvens de tinta-da-china escondo as palavras
que ainda não sei como usar
retalhos do meu corpo e do meu cheiro
e do sabor das minhas entranhas
destroços dos meus amores e desamores
pequenas pérolas das ostras felizes de dias de mar
grãos de areia na engrenagem dos céus
de algodão sujo


 * escrito para o quadro do pintor e cenógrafo espanhol José Luis Navarro e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Metamorfose

O estômago permanece sereno
mas as pernas desfazem-se em borboletas
quando leio as linhas que escreveste
noutro tempo

a poesia é imortal, amor
mesmo que tu não sejas

 * escrito para o quadro do vietnamita Duy Huynh e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Selvagem

Somos todos animais selvagens
na leitura 
que fazemos 
dos outros

Devoramos 
os seus corações em sangue 
roemos os seus 
ossos exangues da luta
cuspimos
o que resta das suas 
carcaças

E nada trava o apetite 

 * escrito para o quadro da ilustradora  italiana Roberta Angaramo e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Memórias

Mergulho em ti
como mergulhas na minha memória
sem pedir licença

faço-me extensão
do que somos juntos
serena sereia amando pirata
enredo de livro de cordel
final obviamente feliz

bendita a literatura
que nos mantém juntos
quando a morte ceifou
a verdade

 * escrito para o quadro da pintora francesa Francine Van Hove e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
 

sábado, 29 de setembro de 2012

No olhar

Em algum dia fomos assim
criança de livro na mão
sonhos por sonhar
quanto mais viver

e todos os pássaros no olhar


 * escrito para o quadro do pintor espanhol Jose Enrique Pinaglia e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.
 

Na relva

Deixa-me morrer assim, estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens. 
Deixa-me morrer assim, um livro aberto numa página bonita
- espero que não se levante o vento e a mude,
baralhando a minha última vontade
e testamento final.

Deixa-me morrer assim, a achar que vão recordar-me
e sentir vagamente a minha falta quando,
em dias assim quentes e húmidos,
avistarem alguém estiraçada na relva, descalça, olhos postos nas nuvens
e um livro aberto. 

Quem sabe numa página bonita

 * escrito para o quadro do pintor sérvio Vladimir Dunjic e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um abraço

Importa o que se lê?
Importa se as letras que se juntam 
falam de algo que morreu
de passados que passaram
de futuros que não se sabe se teremos?

Importa se a sequência em que se completam 
ilustram estados de alma 
paixões rasgadas
ou meros reflexos de luz numa gota de água 
que se equilibra perclitantemente
numa pétala?

Importa se as palavras se aninham
umas nas outras
para simular o teu abraço? 

* escrito para o quadro da irlandesa Daire Lynch e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Detalhes

Às vezes não passa de um detalhe
uma vírgula no teu olhar
uma reticência na forma
como as tuas mãos alcançam a minha

Às vezes não passa de uma gralha

uma palavra que saiu trocada
da tua boca
uma conjugação do verbo amar 
num presente mais que imperfeito

Às vezes não passa de um rabisco 
que displicente traças 
na margem do livro
que andamos a escrever

Mas tudo me diz
que eu e tu 
não pertencemos 
ao mesmo poema


 * escrito para o quadro da alemã Annette Schmucker e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Peço escusa

 
Peço escusa, sr. dr. juiz,
Peço escusa à dor
que a conheço de outros carnavais 
Peço escusa ao abismo negro
das lágrimas
Ao portão imenso
que delimita a minha loucura
 
Peço escusa
encarecidamente
sr dr juiz 
à negritude de alma
que sei como tolda a vida
 
Peço escusa ao sofrimento
auto infligido
Prefiro a infinita ingenuidade
de achar que todos os dias
são recomeços
e todos os dias posso fingir que sou feliz 
E todos os dias posso dar
chapadas de luva branca aos que choram
e se lamentam
e se arrastam
Como me arrasto por dentro
quando me permito
ser apenas eu
 
Peço escusa sr. dr. juiz
às chaves da minha angústia
Prefiro os muros altos que criei
e a solidão que significam
à compaixão que abomino
 

sábado, 25 de agosto de 2012

Chão da manhã



Escorregam-me os olhos pelo chão da manhã
em busca do momento da partilha que há-de vir.
Pertenço ao povo que vive na dura argamassa das juntas.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Às escondidas


Poucos sabem que me escondo
na tua imagem

Faço dela o transporte
para as palavras
que não consigo segurar
e que temo não valerem
a tinta que nelas gastos
o papel que risco
a eito
sem conseguir suster
a ânsia
de dizer algo que sei
sem saber como sei

algo que fique

algo por que me recordem
um dia
quando já não for mais
do que cinza e espírito

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Estalo


Tira-me as palavras da alma, o poeta
atira-as de volta
como um estalo

um bofetão de realidade
envolta em poesia
duas linhas aqui
ali um pé quebrado
além a redondilha
medida velha de quem sou
e não sei dizer


domingo, 12 de agosto de 2012

A alegre casinha

Moro na casa que li.

É o chão 
e o tecto de mim.


* escrito para o quadro do ilustrador belga Klaas Verplancke e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

No mundo de Alice

Estou a ler o poema que ela lê,
nua,
o meu pêlo sentindo a sua pele

Nem sonha que eu sonho
levá-la pelos telhados
a ver a lua

Ronronar-lhe ao ouvido
pedacinhos do poema 
que decoro agora

Rasgar-lhe a palavra 
final 
no ombro esquerdo



* escrito para o quadro "Alice" de derbyblue (o ilustrador brasileiro Francisco José de Souto Leite) e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Visão de pássaro

Tinhas pássaros nos olhos
e voavam com cada página.
 
Voos rasantes, outros altos
penas soltas pairando no ar
recortes da alma por entre
as nuvens baixas
 
a ocasional anotação na margem da página


 * escrito para o quadro de Rick Beerhorst e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Ler o Verão

Faz de conta que sou a tua leitura de verão,
o livro adiado à espera de um dia de sol.
Faz de conta que sou a página que te deixa preso
e relês vezes sem conta.
Faz de conta que há um jardim assim.
 
Não sabes que o maior prazer das árvores
é ver os seus mortos transmutados em livros?
* escrito para o quadro de Jonathan Burton (já de si inspirado e homenageando Seurat) e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

É segunda

Dobro-me sobre mim
mesma
mal respiro
para caber nas
páginas do livro
que leio

Que dores estranhas terei
chegando
a última página?

  * escrito para o quadro de Andrew Hughes e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

sábado, 14 de julho de 2012

Dia santo

Diz que é sábado e que foi à missa.
Divertia-a ver a cara das beatas quando chegava, siamesa, livro sagrado na mão, sensual como Madalena.
...
E conseguia adivinhar o sexo do sacristão a entumescer sob a batina quando murmurava o 'Salve, Regina': "Ad te suspiramus gementes..."
Já ninguém fala latim, pois não? 

 * escrito para o quadro de Charlie Terrell e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

Diz que há poesia




Porque há poesia
até no silêncio das mãos
desenha no ar
o que sentes
as estradas por percorrer
e as luas que já contaste
afaga sem medo
o futuro que há-de vir