segunda-feira, 9 de julho de 2012

Por todas as razões




Por todas as razões do mundo
e por nenhuma delas
espero a morte
sorrindo-lhe
olhos nos olhos

E no lodo do cais enterro
os restos mortais
daquilo que nunca foi aquilo
que pareceu

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Claridade

São os jogos de luz
e sombra
que me prendem a ti,
a cada página que folheio.

São os contrastes que me fazem
amar-te.

São os cruzamentos inesperados
que te fazem livro
e a mim ligeira,
a caminho de algum lado,
cavalgando a claridade.

* escrito para o quadro de Tadahiro Uesugi e publicado primeiro na rubrica diária "a-ver-livros" do blog Clube de Leitores.

sábado, 23 de junho de 2012

No abraço do poema

Abraça-me.
Eu sei que é banal.
Mas dentre o banal é o mais espectacular dos momentos
em que dois corpos se tocam
em que duas galáxias se roçam
no amplexo da ternura

Já nem falo da saudade.
Falo apenas do abraço sentido
apertado
de quem se quer
bem
muito
tanto
sempre
Deixemos o desejo
para depois, quando os corpos acordarem

e escreveremos o livro
com que ambos sonhamos 


* poema escrito sobre este quadro do pintor italiano Lorenzo Matttotti e publicado primeiro na rubrica a-ver-livros do blog Clube de Leitores

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Translúcida

Estou translúcida, como a manhã.
Tenho os olhos postos na tarde.
Talvez assim chegue mais depressa a noite

- e os teus braços.

domingo, 10 de junho de 2012

Sementes



Arranca-me de mim,
esta terra está contaminada
com as lágrimas
dos vermes
que comem memórias

Desenraíza o que resta
de um sonho mau

E oferece-me
um chão novo
sementes de bonsai
caroços das cerejas
comidas

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pormenores



Por menores que sejam
ficam em mim os teus sulcos
pormenores de nós nas paredes
dos tempos

* dedicado à Emiliana Silva, autora desta foto.

sábado, 2 de junho de 2012

Lava e flores


Tenho calor. A alma em brasa. 
Um vulcão no lugar do que não tem nome, escorrendo de mim em lava e flores. 
Arrefece-me.

domingo, 20 de maio de 2012

Arruma-me entre livros



Arruma-me entre livros
E esquece-me 
Deixa-me acumular pó e tempo

Serei apenas um
retalho de memória
mastigado pelas térmitas 

Uma página virada
sem apelo
nem agravo 

Arruma-me na prateleira
dos romances
de cordel,
encostada
à Barbara Cartland
e à Corin Tellado

Terei a eternidade
para aprender
a gostá-las

domingo, 13 de maio de 2012

Glosando



Prometeste-me uma eternidade miudinha
deste-me um dia e uma noite

De miudinha só a chuva
que caía
despedindo-se do inverno

E escondendo as lágrimas
que, teimosas,
insistiram em cair

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A mão



A mão aberta
suspende-me o medo
ampara-me as noites
agarra na minha
sem a tocar

A mão sempre aberta
que procuro
no meio dos sonhos
no meio do sexo

A mão aberta
e para sempre caída
no alcatrão quente
da memória

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ódio manso


Quero o teu nome
tatuado no meu peito
à força
das tuas unhas

Quero-o em sangue.
Indelével.

Quero recordá-lo
em dor
em fel
em cicatrizes enormes
como cartazes
de aviso aos incautos.

Quero-o bem perto
dos lábios que te beberam
dos dedos que te percorreram
sem adivinhar
o fedor
que a tua pele deixaria
na minha.

Quero o teu nome
presente como relâmpagos
na minha memória.

Para que não se apague
este ódio manso
que me permite guardar-te
para sempre
a meu lado.

sábado, 28 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

Isto é um assalto

Cada vez que te abraço
sinto que te assalto


Sinto que roubo
o que é meu por direito,
como quem saqueia
um tesouro
que já lhe pertence

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Página a página


Visto-me das folhas que despes quando te leio.

Página a página, dedos percorrendo-te sem medo das vírgulas ou travessões. Entusiasmada na expectativa do ponto de exclamação que nos une num só, equilibrando pontos de interrogação que teimam em surgir.

Visto-me das letras que deixas na almofada ao amanhecer, quando sais de mansinho, livro levantado na biblioteca para ser lido por outros. Até voltares a casa e à ponta dos meus dedos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Indomável


As nuvens vão cheias
de pressa
em direcção ao nada,
cavalgam o vento
indomável,

os meus olhos
vão com elas
ver o mundo
que lhes falta.