deste-me um dia e uma noite
que caía
despedindo-se do inverno
que, teimosas,
insistiram em cair

Página a página, dedos percorrendo-te sem medo das vírgulas ou travessões. Entusiasmada na expectativa do ponto de exclamação que nos une num só, equilibrando pontos de interrogação que teimam em surgir.
Visto-me das letras que deixas na almofada ao amanhecer, quando sais de mansinho, livro levantado na biblioteca para ser lido por outros. Até voltares a casa e à ponta dos meus dedos.

Gosto de chegar a ti
quando o sol se põe,
o lusco-fusco se instala,
quando atravessamos em pontas
o limbo entre o dia e a noite
Gosto de chegar até ti
na hora em que os gatos são pardos
e os cães fazem silêncio
Quando não é amor nem ódio,
nem rio nem mar,
e os meus pés estão
na areia húmida,
ainda não na água
As minhas mãos
a milímetros do teu rosto
e ainda não o tocam
Chegar a ti
quando a meio entre
o que ainda não somos
e o que um dia seremos,
presente mais-que-perfeito

Estás mesmo não estando.
Estás na estante que já não existe
e no olhar com que me abraçavas
quando me vias junto a ela,
janela aberta para o mundo.
Estás nos livros que acumulo ainda
sem querer ler no alto de outra estante.
Estás na partilha que sempre falou
mais alto que os abraços
ou até mesmo que as palavras.
Obrigada por estares,
mesmo quando o gesto é de adeus.

Não confundas
silêncio
com esquecimento
– Flutuam memórias
como palavras
cá dentro
e são tantas sobre ti
Temo dizer-te
e deixar-te fugir
nas entrelinhas,
partilhar-te
e ver desfazer-se em pó
o que é montanha
e é só meu
Caminho apenas
sem palavras
junto às tuas pernas,
– em silêncio,
o silêncio mais eloquente
que já ouvi falar.