domingo, 13 de maio de 2012

Glosando



Prometeste-me uma eternidade miudinha
deste-me um dia e uma noite

De miudinha só a chuva
que caía
despedindo-se do inverno

E escondendo as lágrimas
que, teimosas,
insistiram em cair

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A mão



A mão aberta
suspende-me o medo
ampara-me as noites
agarra na minha
sem a tocar

A mão sempre aberta
que procuro
no meio dos sonhos
no meio do sexo

A mão aberta
e para sempre caída
no alcatrão quente
da memória

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ódio manso


Quero o teu nome
tatuado no meu peito
à força
das tuas unhas

Quero-o em sangue.
Indelével.

Quero recordá-lo
em dor
em fel
em cicatrizes enormes
como cartazes
de aviso aos incautos.

Quero-o bem perto
dos lábios que te beberam
dos dedos que te percorreram
sem adivinhar
o fedor
que a tua pele deixaria
na minha.

Quero o teu nome
presente como relâmpagos
na minha memória.

Para que não se apague
este ódio manso
que me permite guardar-te
para sempre
a meu lado.

sábado, 28 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

Isto é um assalto

Cada vez que te abraço
sinto que te assalto


Sinto que roubo
o que é meu por direito,
como quem saqueia
um tesouro
que já lhe pertence

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Página a página


Visto-me das folhas que despes quando te leio.

Página a página, dedos percorrendo-te sem medo das vírgulas ou travessões. Entusiasmada na expectativa do ponto de exclamação que nos une num só, equilibrando pontos de interrogação que teimam em surgir.

Visto-me das letras que deixas na almofada ao amanhecer, quando sais de mansinho, livro levantado na biblioteca para ser lido por outros. Até voltares a casa e à ponta dos meus dedos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Indomável


As nuvens vão cheias
de pressa
em direcção ao nada,
cavalgam o vento
indomável,

os meus olhos
vão com elas
ver o mundo
que lhes falta.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Presente mais-que-perfeito


Gosto de chegar a ti
quando o sol se põe,
o lusco-fusco se instala,
quando atravessamos em pontas
o limbo entre o dia e a noite

Gosto de chegar até ti
na hora em que os gatos são pardos
e os cães fazem silêncio

Quando não é amor nem ódio,
nem rio nem mar,
e os meus pés estão
na areia húmida,
ainda não na água

As minhas mãos
a milímetros do teu rosto
e ainda não o tocam

Chegar a ti
quando a meio entre
o que ainda não somos
e o que um dia seremos,
presente mais-que-perfeito

sábado, 31 de março de 2012

Invisível


Tenho saudades
de mim
mas não me encontro

Cruzo-me com o que resta
cá dentro
e tenho a certeza
de que não pertenço

Pergunto por mim
aqui e ali
ninguém se recorda
de ouvir os meus passos

Passo pela minha própria vida
invisível

Se desaparecer quem vai procurar
Se me evaporar quem vai dar pela falta

segunda-feira, 26 de março de 2012

Dinâmica


O coração
não me dispara
no peito
quando te vejo.

Antes se aninha
no teu,
está em casa.

Não vive do sangue
em sobressalto,
nem do trânsito
insano
das artérias.

Antes do som
familiar
das chaves que se aprestam
à porta de mim.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai


Estás mesmo não estando.
Estás na estante que já não existe
e no olhar com que me abraçavas
quando me vias junto a ela,
janela aberta para o mundo.
Estás nos livros que acumulo ainda
sem querer ler no alto de outra estante.
Estás na partilha que sempre falou
mais alto que os abraços
ou até mesmo que as palavras.
Obrigada por estares,
mesmo quando o gesto é de adeus.

Silêncio


Não confundas
silêncio
com esquecimento
– Flutuam memórias
como palavras
cá dentro
e são tantas sobre ti

Temo dizer-te
e deixar-te fugir
nas entrelinhas,
partilhar-te
e ver desfazer-se em pó
o que é montanha
e é só meu

Caminho apenas
sem palavras
junto às tuas pernas,
– em silêncio,
o silêncio mais eloquente
que já ouvi falar.