
O coração
não me dispara
no peito
quando te vejo.
Antes se aninha
no teu,
está em casa.
Não vive do sangue
em sobressalto,
nem do trânsito
insano
das artérias.
Antes do som
familiar
das chaves que se aprestam
à porta de mim.

Estás mesmo não estando.
Estás na estante que já não existe
e no olhar com que me abraçavas
quando me vias junto a ela,
janela aberta para o mundo.
Estás nos livros que acumulo ainda
sem querer ler no alto de outra estante.
Estás na partilha que sempre falou
mais alto que os abraços
ou até mesmo que as palavras.
Obrigada por estares,
mesmo quando o gesto é de adeus.

Não confundas
silêncio
com esquecimento
– Flutuam memórias
como palavras
cá dentro
e são tantas sobre ti
Temo dizer-te
e deixar-te fugir
nas entrelinhas,
partilhar-te
e ver desfazer-se em pó
o que é montanha
e é só meu
Caminho apenas
sem palavras
junto às tuas pernas,
– em silêncio,
o silêncio mais eloquente
que já ouvi falar.

Procuro dentro de mim o animal selvagem que não conhece fronteiras e que resiste as intempéries. Preciso dele, preciso que me guie pelas veredas deste momento, vertiginosamente descendentes, escorregadias, lamacentas.
Preciso muito que me puxe para fora da floresta negra e húmida em que me afundo. Preciso que uive e arranhe e esgadanhe, preciso que mostre os dentes e lidere o caminho. Eu estou sem forças.
[ilustração "Wildlife", by The White Deer]

Esperam nem sei o quê
Quando não tenho mais
Do que as palavras de todos os dias
Para dizer
O que dói e o que sangra
E o que de vez em quando
Faz sorrir a alma
Como quando enlaçaste
Os teus dedos nos meus
E garantiste que nunca mais estarei só
E sendo mentira não
Deixou de ser verdade
Naquele instante
Em que o corvo crocitou
Lá atrás
E desapareceu
Num voo rápido
Como o das tuas juras

