segunda-feira, 19 de março de 2012

Silêncio


Não confundas
silêncio
com esquecimento
– Flutuam memórias
como palavras
cá dentro
e são tantas sobre ti

Temo dizer-te
e deixar-te fugir
nas entrelinhas,
partilhar-te
e ver desfazer-se em pó
o que é montanha
e é só meu

Caminho apenas
sem palavras
junto às tuas pernas,
– em silêncio,
o silêncio mais eloquente
que já ouvi falar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Leva

Se me queres levar
leva
Não tenho porque ficar
e já morro de saudade
de quem foi andando
na frente

Mas leva sem estardalhaço
Não quero ser um palhaço
na hora de sair de cena

sábado, 10 de março de 2012

A medida das coisas

Que nunca te julgues
o centro de mim
que não és

Nem te julgues
o centro de tudo
Que o tudo é nada
e somos tão pouco

Que não te julgues
o âmago sequer
de ti mesmo

Não és senão a paralela
traçada em relação
ao que acreditas ser

segunda-feira, 5 de março de 2012

Conjugação do verbo precisar

Procuro dentro de mim o animal selvagem que não conhece fronteiras e que resiste as intempéries. Preciso dele, preciso que me guie pelas veredas deste momento, vertiginosamente descendentes, escorregadias, lamacentas.
Preciso muito que me puxe para fora da floresta negra e húmida em que me afundo. Preciso que uive e arranhe e esgadanhe, preciso que mostre os dentes e lidere o caminho. Eu estou sem forças.

[ilustração "Wildlife", by The White Deer]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um livro na mala

Hoje a minha alma sai de viagem. Fez as malas e disse-me: estou fartinha de estar aqui queda, quero estrada! Emprestei-lhe um livro e disse-lhe: quando encontrares um poiso que valha uns dias, espera-me e eu vou lá ter.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Não me deixes


Canta-me ao ouvido, mesmo desafinando.
Segura-me a mão.
Sopra para longe esta dor de cabeça que não me larga.
Afaga-me os cabelos revoltos na almofada.
Vela-me o sono.
Não me deixes sonhar com pássaros.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Voo rápido


Questionam-me a articulação narrativa
Inquirem sobre a rede de símbolos
Duvidam da credibilidade trágica
Comparam metáforas poéticas

Esperam nem sei o quê
Quando não tenho mais
Do que as palavras de todos os dias
Para dizer
O que dói e o que sangra
E o que de vez em quando
Faz sorrir a alma

Como quando enlaçaste
Os teus dedos nos meus
E garantiste que nunca mais estarei só
E sendo mentira não
Deixou de ser verdade
Naquele instante
Em que o corvo crocitou
Lá atrás
E desapareceu
Num voo rápido
Como o das tuas juras

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Perdoa amar-me primeiro

Perdoa-me ter amado
antes de ti

ter-me entregue a outros
corpos
outras ilusões

perdoa-me a insanidade
de ter julgado
ouro o que luzia
e ter vivido de acordo

Perdoa-me ter sido eu
antes de nós

Perdoa-me continuar
a ser eu
depois de nós

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Não me RIPem

Quando eu morrer não me RIPem. Quando muito contem uma ou outra historieta minha, em surdina. Escolham uma que não seja muito parva, escusam de me deixar ficar mal na última fotografia. Mas não me RIPem.


Acreditem que fiz todas as escolhas em consciência, que virei à esquerda quando quis e à direita quando me deu na veneta , e que estive sempre preparada para as consequências.

Não me mandem descansar em paz. Quero lá descansar. Quando morrer terei um mundo novo para desbravar, com corpo sem corpo, com voz sem voz, tanto faz. Será uma outra realidade, mesmo que apenas silêncio e escuridão, e eu tenciono tirar o maior partido dela que me for possível.

Quando eu morrer bebam uns copos por vocês e por mim, façam uns brindes, desejem-me boa viagem, prometam que não me esquecem com duas cantigas, nem três, vá lá, mas não me ponham num pedestal nem digam aquela coisa horrível do ‘coitada, morreu tão nova’. Fui quando tinha que ir, ou irei, melhor dizendo. Que não tenho pressa. Mas não tenho medo.

Só não me RIPem. Se começarem com essa merda, juro que volto cá e faço-vos a vida negra, ouviram!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Nos livros


Às vezes escrevo
directamente
do coração

Outras
das entranhas
em linhas quebradas
de bilis e fel

Há dias em que escrevo
sem me lembrar
que tu existes

E desejando que
na realidade
não existas

É mais fácil a dor
quando vem
apenas nos livros

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Não esperes


Não esperes de mim
o que não prometi
dar-te

Não esperes
a mão
que não te estendi

nem o beijo
que guardei

Não esperes de mim
as manhãs luminosas
que não partilhei
até agora
com os teus olhos

nem as estrelas
nocturnas
que espalhei no céu
sem lhes dar o teu nome

Não esperes de mim
mais do que o nada e,
quem sabe,
terás tudo


ilustração: Holly Lombardo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Clementinas


Cheiram a clementinas
as mãos que me percorrem
o rosto

como um cego
à caça
de memórias

Cheiram a clementinas

e levam-me ao início
do mundo

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

O estudo da dor


Quando é que aprendes
que aguentar a dor
não faz de ti
mais forte

nem melhor

Aguentar a dor
não faz de ti
especial

nem poderosa

Aguentar a dor
não faz de ti
mais

do que apenas
alguém
que aguenta

sábado, 31 de dezembro de 2011

"O Essencial é Invisível aos Olhos"


Não faço parte
Não pertenço

Não passo de um

afterthought

second best

last resort
Sou a mulher invisível,
muito prazer

* origami de Shipo Mabona

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Geografia


Já anoiteci nos teus olhos
e amanheci nos teus braços.
Conheço o pico
dos teus himalaias
e o fundo do teu pacífico.
Senti o calor da tua alma
e o frio da tua mente.

Só nos falta abraçar
a geografia eterna
da saudade, amor

* Recorte em papel, by Peter Callesen

domingo, 25 de dezembro de 2011

A dez minutos


Em noites
como a de hoje
costumo ir beber um copo
para calar a tua ausência

Fazer parar o vento
insano
que me atravessa
o buraco no peito
para fazer de conta
que estás cá
algures
a dez minutos de mim
a dez minutos dos meus abraços

E hoje estou sóbria
distraí-me
estou sóbria
e a dor sobreveio
em catadupa
como se te tivesse perdido
ontem
esta noite
há bocadinho
agora mesmo
à frente dos meus olhos

Diz-me que não é verdade
só preciso que me digas que não é verdade

sábado, 24 de dezembro de 2011