sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ventanias


Porque é que não estás
aqui
na almofada
onde o meu bafo
te beija

Porque não estás
ao alcance
dos meus dedos

Porque não estás
aqui
ao meu pé de semear
que sempre se enrosca
no teu
nas horas perdidas da noite

Porque não estás a meu lado
se a meu lado pertences
e as noites estão frias
e o meu coração gelado
e a saudade aperta

Deixa os moinhos,
amor,
vem salvar-me
das ventanias assombradas
do passado

domingo, 18 de dezembro de 2011

Farinha para bolos

Quero palavras felizes como os sorrisos
de então
Devolvam-mas que as mereço
Entreguem-mas que as cuidarei
Dêem-me a sua custódia que lhe farei juz

Quero enxertá-las nos vasos da janela
Misturá-las na farinha dos bolos
Deixá-las brincar com os carrinhos
para que já ninguém tem idade

Quero palavras felizes, só isso
Sem medo que não sejam verdade


* Tela de Paulo Freixinho. http://palavras-cruzadas-com-arte.blogspot.com/2008/05/pintura-palavras-cruzadas-em-tela-ler.html

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Lembrança


Quando um dia
eu for desta para melhor
não se esqueçam
que levo comigo
os abraços e beijos
as flores e amores
as lágrimas

Que não me deram
em vida

domingo, 11 de dezembro de 2011

Palavra de honra


Só tenho uma palavra
e é precisamente
a que não posso dizer-te

Não vão agigantar-se as manhãs
pela noite dentro
e o chão fugir-me
de debaixo dos pés

Só tenho uma palavra
e sei-a de cor

Repito-a em surdina
enquanto respiro
no dia após dia
a teu lado

Só tenho uma palavra
e uso-a contra mim

Atiro-a sem pudor
quando ninguém está a ver
estilhaço-a
nas minhas costas

Só tenho uma palavra
e faz eco cá dentro
ressoa nos túneis
onde passa o sangue
sempre cheio de pressa

Só tenho uma palavra,
uma palavra só,
que tu sabes qual é
e não queres ouvir

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Triacontaedro rômbico

(O triacontaedro rômbico é um sólido de Catalan
cujas faces são 30 losangos.
Tem 60 arestas e 32 vértices.
Qualquer coisa como a vida.
Ou a morte.)

No pólen dos dias,

a convicção do amor.


É ela que serena

a alma

e que traz de volta o sorriso.


Que volte depressa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Na noite


Uma criança chora na noite

E tudo é desespero.

Chora e ninguém a consola

Que o pai matou a mãe

Que jaz no chão em sangue

E já não tem vida nos olhos.

Ou talvez seja apenas a minha imaginação

Entre o sono e o alerta

E tudo não passa de um dente a romper.


ilustração: "Wind Chime", de Sam Nassar