quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Na noite


Uma criança chora na noite

E tudo é desespero.

Chora e ninguém a consola

Que o pai matou a mãe

Que jaz no chão em sangue

E já não tem vida nos olhos.

Ou talvez seja apenas a minha imaginação

Entre o sono e o alerta

E tudo não passa de um dente a romper.


ilustração: "Wind Chime", de Sam Nassar

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Terra, vento e fogo


Já viste a corrente de ar

que faz a tua ausência,

a ventania

que segue o teu rasto?

O temporal

que vai cá dentro?


E, nesse meio tempo,

o sol que arde

ao fundo

colorindo de fogo

a memória de ti.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Código nimbus

Alguém riscou os céus
para mim,
traços de nuvens,
código secreto.

Só eu sei ler nelas
as palavras
que não foram ditas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia da memória são todos os dias


No princípio era o verbo.

O verbo chegar.

Conjugado em ti.


Haveria de conjugar-se mais tarde

o verbo partir.

Não choro. Sei que em breve

estaremos juntos.


Origami by Sipho Mabona

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O significado dos sonhos


Quero escrever algo e só me sai fel,

bílis,

asco em golfadas.

Tudo é nojo,

Desengano,

Sombras carregadas de monstros.

Inundo-me de raiva e desconfiança

Total.


Sonhem com amor, vocês todos.

Eu só desejo

a verdade.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Equilíbrios


Sorrio mais quando chove
Quando troveja
Quando o mundo desaba.

Há que sorrir até
que o ciclo se cumpra
E possamos ser nostálgicos de novo
na placidez dos dias felizes.


* Quadro: Storm over Ryedale Moor, de Steve Greaves

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Do lado de lá


Porque nunca te esqueço

e hoje lembrei-me

acordei convicta de que tinha

que te telefonar

saber de ti


Saberás mais tu de mim

no silêncio do telefone

se é verdade o que dizem

sobre o lado de lá

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Primeiro


O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que fosse enorme
imenso
perfeito
profundo

O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que movesse montanhas
e fizesse brotar flores
nos mais insuspeitos caminhos

O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que me esticasse a alma
da terra à lua and back

Porra!
O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que fosse o último.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E morrer assim


Estou morta
e deambulo pela casa
enquanto vocês me deixam dormir
mais um bocadinho
e acabarão por me encontrar
já rija e a feder
estiraçada na cama
de onde, afinal,
não cheguei a sair.

Estou morta
e deambulo pela casa
até me sentar no cadeirão
do fundo
e pensar
que até é curiosa esta tranquilidade
de quem feneceu acordada.

Estou morta
de medo que o mundo
volte a fugir-me de debaixo dos pés
sem apelo nem agravo
sem controlo ou perdão.
Que o meu mundo
volte a fugir para dentro de mim
e fiquem de fora apenas
as perninhas
a abanar
dependuradas do precipício.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Naftalina


Deixa ser eu
a levar a luz
à escuridão em que te encontras

Dá-me oportunidade
de abrir as janelas
que fechaste no luto

Arejar o coração
que arrumaste
com naftalina no fundo do peito

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rima pateta com aspirações a cançoneta


Faz.
Faz uma melodia para esta letra pateta.
Faz dela canção.

Talvez um dia eu a trauteie entre lágrimas
ou entre sorrisos
e faça dela um hino a um amor que não muda,
que não passa,
a um amor que é amor
se calhar porque vivido
eternamente
na distância
mas que nem por isso deixa de ser
amor.

-----<3-----

Ponho-me nua
Faço-me tua
Minto-te tanto
Quanto minto a mim

Tenho outro sonho
Não ponho e disponho
O meu coração
É que é senhor de mim

Faço-me forte
Reajusto o norte
Tento por força
Entregar-me a ti

Digo-me tua
Mas serei sempre sua
Daquela tal outra
Metade de mim