sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Terra, vento e fogo


Já viste a corrente de ar

que faz a tua ausência,

a ventania

que segue o teu rasto?

O temporal

que vai cá dentro?


E, nesse meio tempo,

o sol que arde

ao fundo

colorindo de fogo

a memória de ti.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Código nimbus

Alguém riscou os céus
para mim,
traços de nuvens,
código secreto.

Só eu sei ler nelas
as palavras
que não foram ditas.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia da memória são todos os dias


No princípio era o verbo.

O verbo chegar.

Conjugado em ti.


Haveria de conjugar-se mais tarde

o verbo partir.

Não choro. Sei que em breve

estaremos juntos.


Origami by Sipho Mabona

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O significado dos sonhos


Quero escrever algo e só me sai fel,

bílis,

asco em golfadas.

Tudo é nojo,

Desengano,

Sombras carregadas de monstros.

Inundo-me de raiva e desconfiança

Total.


Sonhem com amor, vocês todos.

Eu só desejo

a verdade.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Equilíbrios


Sorrio mais quando chove
Quando troveja
Quando o mundo desaba.

Há que sorrir até
que o ciclo se cumpra
E possamos ser nostálgicos de novo
na placidez dos dias felizes.


* Quadro: Storm over Ryedale Moor, de Steve Greaves

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Do lado de lá


Porque nunca te esqueço

e hoje lembrei-me

acordei convicta de que tinha

que te telefonar

saber de ti


Saberás mais tu de mim

no silêncio do telefone

se é verdade o que dizem

sobre o lado de lá

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Primeiro


O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que fosse enorme
imenso
perfeito
profundo

O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que movesse montanhas
e fizesse brotar flores
nos mais insuspeitos caminhos

O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que me esticasse a alma
da terra à lua and back

Porra!
O que eu esperava do meu primeiro
amor
era que fosse o último.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E morrer assim


Estou morta
e deambulo pela casa
enquanto vocês me deixam dormir
mais um bocadinho
e acabarão por me encontrar
já rija e a feder
estiraçada na cama
de onde, afinal,
não cheguei a sair.

Estou morta
e deambulo pela casa
até me sentar no cadeirão
do fundo
e pensar
que até é curiosa esta tranquilidade
de quem feneceu acordada.

Estou morta
de medo que o mundo
volte a fugir-me de debaixo dos pés
sem apelo nem agravo
sem controlo ou perdão.
Que o meu mundo
volte a fugir para dentro de mim
e fiquem de fora apenas
as perninhas
a abanar
dependuradas do precipício.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Naftalina


Deixa ser eu
a levar a luz
à escuridão em que te encontras

Dá-me oportunidade
de abrir as janelas
que fechaste no luto

Arejar o coração
que arrumaste
com naftalina no fundo do peito

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rima pateta com aspirações a cançoneta


Faz.
Faz uma melodia para esta letra pateta.
Faz dela canção.

Talvez um dia eu a trauteie entre lágrimas
ou entre sorrisos
e faça dela um hino a um amor que não muda,
que não passa,
a um amor que é amor
se calhar porque vivido
eternamente
na distância
mas que nem por isso deixa de ser
amor.

-----<3-----

Ponho-me nua
Faço-me tua
Minto-te tanto
Quanto minto a mim

Tenho outro sonho
Não ponho e disponho
O meu coração
É que é senhor de mim

Faço-me forte
Reajusto o norte
Tento por força
Entregar-me a ti

Digo-me tua
Mas serei sempre sua
Daquela tal outra
Metade de mim

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quero dormir


Quero dormir
o sono dos injustos.

O sono
pesado
dos ignóbeis,
que se entregam ao leito
sem querer saber dos corpos
que deixaram para trás
na vertigem
da batalha.

Quero dormir o sono
de pedra
dos amorais,
dos iníquos,
dos perversos,
dos abjectos.

Quero dormir
e só acordar quando deixar
de ter a consciência
como almofada.

sábado, 8 de outubro de 2011

Fui


Riscas-me os céus de nuvens
para que não te esqueça

Choves-me
para que eu saiba que choras
a minha ausência

Envolves-me no vento,
abraças-me com força,
queres-me de volta

Que parte de ‘fui’ é que não entendeste?


* escultura em porcelana por Kate McDowell

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Promessas


Prometi-te um beijo.
E acabei por dar-te um poema
feito de lábios
e luar.

Prometi-te um abraço.
E acabei por dar-te
o meu âmago
em forma de rio
e ponte.

Há promessas que se cumprem
assim.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Poções e feitiços


O vento desenha
sulcos na água
e logo se arrepende.

Limito-me a respirar,
máquina de carne, osso,
alma enredada nos sulcos
que o vento desenha
na superfície
de mim
e logo se arrepende.

O vento que reduz
a inquietação no meu peito
a um leve arfar
de quem subiu escadas.

Sinto-me capaz
de conjurar as forças
da natureza,
fazer com que aquela nuvem
chova sobre ti
enquanto recordar
o teu nome.
Sinto-me capaz
de poções e feitiços.

E curiosamente não invento um
que te traga de volta.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Apetite


Observo-te
com a ânsia expectante de quem tem
os olhos postos
nos figos guardados
para o fim do almoço

Sei que me vão dar dor de barriga
mas acabarei por os comer

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Lua cheia

A lua está cheia
e ouço-te uivar sob a minha janela
em fúria
e fome
e ânsia
e instinto

A lua está cheia
e sinto-te pulsar entre as sombras
intensas
imensas

A lua está cheia
e o meu sangue espera-te nas veias,
crisol carregado de prata
para matar-te no fogo de amar

Sou peeira,
guardadora de ti
fada dos lobos
senhora da alcateia

(ilustração by Renée Nault)