terça-feira, 26 de abril de 2011

Abrilada


As minhas lágrimas são abril
e um tempo que já não é.
A semente deitou raiz
e caule e folha
E a árvore não dá a fruta
que saciaria quem à terra a deitou.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Olhando os pássaros


Há pássaros que voam
cá dentro de mim
Asas que rasgam
os meus céus de azul
Voos rasantes
nos planos de relva
acabada de cortar

Há pássaros que voam
cá dentro do peito
Piruetas acrobáticas
que me fazem sorrir
Cantando em harmonia
canções que o poeta
ainda não inventou

Há pássaros que voam.
Asas e voos.
Piruetas e música.
E há o teu olhar
olhando-me
enquanto os olho
de olhos fechados.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O tempo parou um instante

O passado cruzou-se comigo e fez questão de dizer olá. Num rosto envelhecido, após alguns segundos de total estranheza, reconheci alguém que, talvez sem o saber, pior, talvez sem qualquer real culpa, marcou pela negativa um momento doloroso da minha história.

E a disponibilidade inata para dizer 'então pá, como estás, há tanto tempo' afogou-se num mau estar psicológico e físico que me secou a garganta e o sorriso no rosto, me impeliu a esticar a mão num cumprimento mais que formal e a que apenas me senti obrigada pela educação. Um mau estar total que me faz agora, sentada na privacidade do carro, verter lágrimas compulsivas de que há muito não sabia o paradeiro.

Moral da história? Não há. Apenas o registo para a posteridade virtual desta emoção avassaladora que me gelou alma, corpo e tudo. Não a conhecia. E se a adivinhava possível não a tinha por tão poderosa. Não a desejo ao meu pior inimigo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

abcedário à flor da pele


Com todas as letras do alfabeto escrevo o meu amor por ti.
Unem-se a esmo, por vezes sem palavra aparente,
fazem-se eco de sons que descubro a cada conjugação,
invocam futuros que não sonhara
mas que aprendo a desejar.

abcdefghijklmnopqrstuvwxz.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Laços e nós


Perco-me nesta desarrumação de corpos que somos nós dois depois do êxtase e já não sei onde começo eu e acabas tu. Reconheço pele e calor, o cheiro que não existia antes de sermos juntos. As mãos que sulcam o mapa que somos.

Sei-te em mim e sei-me em ti.

A minha perna afinal é a tua. Aquele braço - desculpa, amor - é meu. Desenredamos o laço que somos deslizando, como seda, até encontrarmos a distância máxima a que suportaremos dormir. A tua mão vai procurar-me na noite. O meu pé buscará o contacto do teu, ambos nus. E, no meio sono, confirmaremos as respectivas presenças.

Eu já sou a tua vida e tu já és a minha vida.
Podemos entregar-nos ao sono, reatados que estão os nós que nos unem.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

What's another year?


No espaço de mim onde estavas tu
continuas.
Não é a falta de um corpo
que te arranca do meu peito.

Como disse Exupery, 'é verdade que nunca mais vais estar comigo mas nunca mais estaremos separados'.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Beija-me e cala-te




Não me atreveria a definir o amor.

Já li demasiados poemas merdosos
e prosas mal alinhavadas,
adjectivos a esmo,
grandiloquentes e patéticos.

Digo baixinho o teu nome
e chega.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Primavera ou ainda não


entre a árvore
e as sombras
fica o que resta
do teu olhar
pendurado no ar
como quem espera
a primavera

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Como me amas te amo


Redescubro o amor
sempre que volto a mergulhar
nos teus olhos
sempre que os teus dedos
me encontram a pele
redescubro o amor
sem quês nem porquês
sempre que me entrego
ao teu beijo
sempre que te sei
ao meu lado
redescubro o amor
completo e real
sem rodriguinhos
nem cenas canalhas
sempre que, amor,
me tomas nos braços
e me amas
como só tu me amas, amor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Uma teoria tão boa quanto outra qualquer


há espadas e bainhas
e não saberia guardar a tua lâmina
que também sou de metal
e tenho diamantes incrustados no punho
mesmo que não o saiba
senão aqui e ali por instantes.

quando há só espadas
sobra a batalha
e nem o amor salva.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Vamos a votos


Os que amo sabem que os amo. Aprendi há muito que essas coisas não podem nem devem ser deixadas para depois. E quando não digo, demonstro - que não há vocábulo mais precioso do que um olhar que não mente.

Aqueles por quem tenho amizade, carinho, empatia também o sabem. Mesmo sem ser a mais presente das presenças, sabem que estou cá e estarei. Chuva ou sol. Não saberia ser de outra maneira.

E decerto nenhuma das pessoas incluídas neste rol - e são tantas e dão-me alento de tantas formas diferentes! - duvida que não lhes desejo menos do que o que desejo para mim. No Natal como no resto do ano.

Por isso, desta vez, não me apetece ceder à pressão social das mensagens da praxe e dos blá blá blá de ocasião. Limito-me a sorrir em geral. Sorrir é bom, não é?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Diz que é quase Natal


Fechas-me numa caixa de silêncio, a tentar abafar o meu grito. Não sabes que vai continuar a ecoar-te no peito?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A falta

Hoje acordei com a sensação clara de que me falta um livro.

É verdade que também acordei depois de sonhar que Maria de Jesus Barroso tinha acabado de me oferecer o cargo de assessora para a saúde e eu, atrevidinha, lhe disse que preferia se fosse para o turismo, o que quer que isso queira dizer.

De qualquer modo, uma das coisas é mais fácil de realizar do que a outra, não é...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Oferenda


Apetece morrer devagar.

Tão devagar
que não dês pela minha falta
até que seja tarde demais
e a minha ausência te expluda
no peito
como uma granada

Quero que sintas dor
e sangres
e tenhas por fim alguma certeza

Nem que seja apenas
a de que foste amado
até à morte

terça-feira, 16 de novembro de 2010

dois braços


tenho dois braços e estão vazios, as palavras não os enchem, as palavras cansam-me, quero gestos, quero corpo, o teu, que é meu, odeio o tempo, não sei esperar, os meus braços vazios desesperam enquanto aguardam que acabes de salvar o mundo de si mesmo. vem salvar os meus braços que morrem à sede de ti

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Carregamentos móveis


Andas com o meu coração no bolso,
com o telemóvel,
guardado para um dia destes.

Talvez quando te faça falta
já não tenha bateria.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Se sorris quando ninguém está a ver...


... tem que ser por uma boa razão.
Mesmo que essa razão estremeça no temporal que se segue.
Ou apenas se dilua no silêncio.