terça-feira, 13 de julho de 2010

Bem querer


Serei quanto
quiseres que seja
e o que for
serei por inteiro.

Mas ser tudo
para ti
é quanto quero.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Despedida


Creio que é agora que me levanto. Agora que a sala está vazia, é só minha, como tantas e tantas noites. Não farei outro serão no quinto andar sobre a avenida. Mas custa tanto virar costas a um amor intenso.

E amei o 24horas, provavelmente como a um filho, sim, que nasceu também de mim. Um filho que me deu tantos momentos felizes, de desafio, mas que também me magoou e tantos erros cometeu enquanto crescia. Um filho ao qual tentei passar, pelo exemplo, aquilo que todos os pais querem passar aos filhos: bons valores. Lealdade, profissionalismo, frontalidade e, acima de tudo, respeito pelo código deontológico. Mas os filhos nunca são bem aquilo que sonhamos que eles sejam, não é? E nem por isso os amamos menos.

Levo daqui a dúzia de papéis que acumulei nestes quase treze anos, uma flor de plástico que já não sei de onde veio, a andorinha que em tempos recortei e colei no ecrã, umas quantas pen com arquivo vário e o bom nome que tanto lutei por manter, por entre chuvas cor-de-rosa e temporais. Provavelmente pago-o hoje com este adeus.

E levo lágrimas.
Custa horrores ver um filho morrer-nos nos braços.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

Eu acredito. E tu?

Bless the Broken Road
Rascall Flats

I set out on a narrow way many years ago
Hoping I would find true love along the broken road
But I got lost a time or two
Wiped my brow and kept pushing through
I couldn't see how every sign pointed straight to you
Every long lost dream led me to where you are
Others who broke my heart they were like northern stars
Pointing me on my way into your loving arms
This much I know is true
That God blessed the broken road
That led me straight to you

I think about the years I spent just passing through
I'd like to have the time I lost and give it back to you
But you just smile and take my hand
You've been there you understand
It's all part of a grander plan that is coming true

Every long lost dream led me to where you are
Others who broke my heart they were like northern stars
Pointing me on my way into your loving arms
This much I know is true
That God blessed the broken road
That led me straight to you

Now I'm just rolling home
Into my lover's arms
This much I know is true
That God blessed the broken road
That led me straight to you

That God blessed the broken road
That led me straight to you.

(http://www.youtube.com/watch?v=lZp6pmgbZyU&feature=PlayList&p=DBD7F959A9B2729F&playnext_from=PL&playnext=1&index=27)

Amanhã

Um dia perco-me
contigo

Ou talvez me encontre em ti,
sem medo dos passos
que se seguem

Encontrar-me-ei
nos teus braços
nos teus olhos

Naquele recanto
do teu pensamento
do teu coração
a que só eu chego

Provar-te-ei
estar ao teu lado
sejam quais forem
as curvas da vida

E a estrada
será nossa

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Por essas e por outras

Escrevo curto, grosso e às golfadas, como quem vomita algo que lhe está atravessado nas entranhas. Por essas e por outras é que nunca vai sair de mim um romance inteiro, só paixões assolapadas e efémeras.

Origami


Queria falar-vos de meia dúzia de coisas. De como há momentos que doem hoje como ontem, como doeram há anos, há tantos anos. De como a saudade não tem relógio no pulso. Queria falar-vos de tudo isso mas não sei das palavras, enroladas nas ondas desta maré palerma que teima em tornar mais cinzento o dia, como se a saudade tivesse data certa para doer mais cá dentro.

Queria isso tudo. Mas só me ocorre origami. A sério. Só consigo pensar em pedacinhos de papel transformados em vida. Em arte. Dobrados e redobrados carinhosa e cuidadosamente por dedos de gente que sabe o valor do detalhe.

É assim a saudade. Um trabalho de minúcia cá dentro do coração. Podia transformar-se num pássaro. Ou num cavalo. Isso. A saudade que tenho de ti é um inquieto cavalo em origami no meu peito.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vuvuzelas que os partam!


Chacinemos alegremente o grandessissimo filho - ou filha - da respectiva progenitora que teve a atormentadora ideia de vender vuvuzelas em apoio à selecção.

Hoje fui acordada por um coro delas, qual manada de elefantes enraivecida proveniente de uma escola primária próxima.

Se eu fosse professora ali acho que metia baixa psiquiátrica. Não sendo, acho que tenho que passar a dormir de algodão nos ouvidos enquanto as porcas das criancinhas não forem de férias...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Memória


Vou lembrar
a tua mão no meu rosto
nas minhas costas
na minha anca
escorregadia
do suor.

Vou lembrar
o teu beijo molhado
na minha nuca
no meu peito
na minha pélvis
inundada
de nós.

Vou lembrar
o cheiro da tua pele
o sabor da tua pele
o calor da tua pele
o prazer da tua carne.
Vou lembrar
o orgasmo
que era amar-te.

Vou lembrar-te.

Até te esquecer.

terça-feira, 18 de maio de 2010

sábado, 15 de maio de 2010

Ridícula, claro


Esta é uma carta de amor
para quem tem medo de amar.
Poucas palavras,
um toque de mãos,
um olhar.
Receio que tudo se esfume
enquanto se escreve.

Que o meu amor te proteja
das esquinas que escondem perigos
das estradas escuras e esburacadas
das ondas que engolem meninos
dos buracos negros da vida
da tristeza e do infortúnio
dos raios que caem do céu
das dores que envolvem amores
da escuridão de breu
e da luz que encandeia
dos bichos-papão da infância
do chiar insano de pneus
do bicho da fruta
e do monstro da gruta
e de tudo quanto é mau.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A palavra



Enquanto a malta cura a ressaca do Benfica e fecha os olhinhos em devoção, Sócrates mete-nos a mão no bolso, provando que a sua palavra vale o que não vale.

Mais ágil do que ele só mesmo o deputado Mãozinhas...

Pecados



Madre reverenda, eu pequei.

Disse uma asneira de todo o tamanho no momento em que me disseram que ia ter que papar todas as transmissões televisivas da visita do velhinho de branco.

Mesmo cumprindo toda a penitência - será que perdi de vez o autocarro para o Paraíso?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ora essa!


Não faço ideia qual era o filme, a passar no Mov. Apanhei-o ali mesmo, nesta conversa onde se falava de Portugal. "Nunca confies nos portugueses", dizia um. Perguntava o outro: "Porquê?"

"Porque são piratas."
Ora essa!

(Des) classificados


Andei entretida a espreitar os classificados mais ou menos amorosos das revistas tipo "Maria" - como as bolachas... E fiquei fascinada. “Criatura selvagem, na cabana dos 35, procura gata felina a fim de reconstruir cabana na zona de Vila do Conde. Gatas mais tímidas aceito mensagem”, diz um, garras de fora.

Outro deve ser das matemáticas. "Procuro senhora de raça negra, com altura entre 176 e 180 centímetros". Um máximo de quatro centímetros de amplitude! A isto se chama detalhe. Mas há detalhes para todos os gostos. Um certo senhor, casado, 37 anos, "deseja conhecer pitinha solteira". Outro procura "mulher de 40 anos que tenha a vida organizada". O Ruben, de 27 anos, quer meninas que "gostem de ser dominadas". Um auto-denominado "homem jovem" anda à caça de "mulher de grande poder económico".

Essa coisa do 'jovem' também é muito curiosa nestes anúncios. Um auto-designa-se como "jovem de 44 anos" e "procura lady séria". Também encontrei um "cavalheiro" de 50 anos "pobre, com pequeno snack bar", que "deseja senhorinha elegante".

E que dizer dos românticos que se põem com floreados? Um "cavalheiro quarentão", casado, “procura mulheres que, como eu [ele, claro], ainda gostem de ouvir os sinos a tocar e os pássaros a chilrear”. E a idade não explica tudo. O próximo anuncia-se como tendo 25 anos, um "príncipe do reino do Norte, com olhos cor de mar".

Também há os piadéticos e semi-piadéticos. "Rapaz desempregado no amor e farto de contratos a prazo com patroas desonestas. Quero patroa que me dê contrato efectivo no amor, em Setúbal." Ou "Minha cara senhora, se tem o peito muito grandão, ajude-me. Depois de experimentar tantas almofadas ortopédicas ainda tenho dores no pescoço".

Fascinam-me também os tipos que acenam com a sua própria angústia ou, em alternativa, que querem mulheres angustiadas. "Se o casamento e o amor também infernizaram a tua vida, deixa-me ser o ‘terapeuta’." Quê?! Certo Arlindo contabilista diz que "há momentos na vida em que sentimos um grande vazio existencial e depressivo". Claramente será o tipo ideal para fazer alguém feliz...

Tenho sono e tudo isto me parece absolutamente patético. Dou de caras ainda com este "senhor casado, bem apresentado e bonito" que procura senhoras até 45 anos. "Nota: só as que realmente sintam vontade de fazer amor."

E as que só tiverem vontade de cagar?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ora gaita!


Ler é parte intrínseca de mim. Às vezes acho até que sabia ler antes de reconhecer as letras e saber juntá-las, o prazer tal que me dava manusear aqueles objectos delicados de papel e tinta. Hoje - quantos privilegiados de nós não se queixam do mesmo? - não consigo ler quanto desejo. O tempo não sobra. O cansaço cobra. Os olhos não conseguem manter-se abertos.

Quando finalmente consigo entregar-me à leitura, espero que o mundo se abra a meus dedos, perfeito e maravilhoso - mesmo quando há sangue e suor e lágrimas e dor e angústia e nada parecido com finais felizes.

De repente, não mais que de repente, um erro de português. Um erro crasso, que se agiganta a meus olhos como a Hiperião, 115 metros de sequóia como que nascida no meio da rasteira planície alentejana. Esta noite era a palavra "deicha", deixada abandonada no meio de uma tradução já de si mais do que atabalhoada.

O prazer transformou-se primeiro numa irritação contra os tradutores de meia tijela que por aí proliferam (sim, já sei. claro que também há dos outros, dos bons, graças aos céus). Encontro-os todos os dias, por exemplo, a legendar séries e filmes na televisão, onde as asneiras são aos pontapés.

Aos poucos, a irritação foi-se transformando numa interrogação: que é feito dos revisores de provas? Sim, aqueles homens e mulheres que, não tendo o estro para escrever os livros, têm o conhecimento da língua para os apurar, como aqueles que, não tendo a capacidade de desenhar estradas, as alcatroam para que se tornem fluidas.

Será decerto uma profissão em extinção, mas decerto não porque falte quem tenha capacidade para desempenhar a função. Acredito mais na economicista decisão de poupar uns trocos na produção de livros ao quilo com que cada vez mais nos deparamos, saltando uma fase do processo.

Estarei talvez a ser injusta com muitas (poucas? algumas?) editoras. Mas há editoras que estão a ser injustas comigo - connosco - quando esperam que se pague em média entre 15 e 25 euros por um livro e não se sinta roubado quando se percebe que ninguém leu aquilo com atenção antes de o atirar para os escaparates das livrarias e dos supermercados. Lavro daqui o meu protesto, mesmo que apenas uma gota no oceano. Ora gaita!

O teu nome


Cosi o teu nome
no forro do meu corpo
para não ter de o dizer
em voz alta

Evito assim
que me rebente a boca
com a amargura

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Boletim meteorológico II


Quando chove assim
corro para a janela
ver as sombras
que a chuva faz no prédio da frente
ao escorrer
intensa
pelo globo iluminado
do candeeiro da minha rua.

E enquanto cai assim,
sem dar tempo para respirar,
tenho guelras
e vivo num aquário.

[Talvez estivessem à espera que vos dissesse como a chuvada me faz pensar na vida, nos mistérios da existência humana, será que Deus existe ou existe algum deus. Lamento desiludir as vossas ânsias metafísicas. Quando chove assim sou una com os céus condensados, a terra molhada, a cortina de gotas que se liberta sob as rodas do carro à minha frente na auto-estrada. Sou depois as gotas que permanecem, suspensas, nos ramos daquela árvore a que a primavera ainda mal chegou. Qual Swarovski, qual gaita...]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Verdades e mentiras


"Amo-te. E porque te amo prefiro que me odeies por dizer-te a verdade do que me adores por dizer-te as mentiras que pensas que queres ouvir"

E porque te amo. E porque te amo. E porque tenho cá a vaga sensação que te amo. Digo as verdades sem flores, sem enfeites. Digo a verdade mesmo que me doa mais a mim do que a ti. E a ti. E a ti. Porque vos amo. Digo a verdade que vejo. A verdade que sinto. A verdade que sei. Digo a verdade que é este meu olhar do lado de cá.

Era tão mais fácil mentir-te. E a ti. E a ti. E provavelmente também a ti. Tão mais fácil enfiar uma série de palavras num colar de ilusão e colocá-lo em redor do teu pescoço, com um gesto displicente. Mas sei que os olhos que hoje possas ter fechados se vão abrir amanhã. E quando virem a verdade que já conheço vão saber que menti. E será tarde demais para confiares em mim.

Serei louca? Prefiro a tua confiança. E a tua. E a tua. E até a tua. Quantas vezes a prefiro até ao teu amor, meu amor.